A querela do princípio de operação da substância primeira

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Existem provas suficientes de que a forma substancial é a principal fonte e raiz da operação, e quase todos os peripatéticos a reconhecem; resta saber se também pode ser um princípio imediato de ação. Nesta famosa polêmica, duas soluções opostas surgem.

A primeira é a de Escoto (em Sententiarum I, dist. XXXVII, q. unica; IV, dis. XII, q. III, etc.) e sua escola (Ponce, d. IX, q. II; Mayronis, p. II, d. II, q. III, art. VIII; Arriaga, d. XI, sent. II; Oviedo, c. IX, p. IV, etc.), que argumentam que a maior parte dos atos são retirados imediatamente da forma substancial. Tal posição quer, antes de tudo, que nas substâncias espirituais os atos do intelecto e da vontade procedam assim da própria substância, e, consequentemente, a inteligência e a vontade não seriam potências realmente distintas da alma racional. A palavra inteligência designaria unicamente a própria substância da nossa alma que compreende, e a palavra vontade, a mesma substância que apetece. Quanto aos seres corporais, mesmo concedendo que as disposições da matéria são produzidas pelo agente por meio dos acidentes, os escotistas desejam que a forma acidental seja produzida imediatamente pela forma substancial do agente e, como resultado, o último será imediatamente operativo.

Lembrete: embora Escoto não chancele nenhum modo de distinção real entre alma e suas potências, tampouco aceita que entre ambas se dê uma mera distinção de razão; entre a alma e seus princípios imediatos de operação há verdadeira “distincio formalis ex natura rei” (distinção formal por parte da natureza da coisa).

A segunda posição surge em Santo Tomás, seguida por todos os tomistas (João de S. Tomás, Curs. Phil., Physic. q. XII, art. II; Cardeal Aguirre, disp. XV; Complutenses, d. X, q. IV; Babenstuber, d. IV, art. III; Renz, Physic., Lib II, q. V, art. IV; Goudin, Physic., d. II, q. IV, art. III, etc.) e por vários outros filósofos e teólogos ilustres (especialmente jesuítas, como Vásquez, I. p, d. CXCV, c. I n. X; Fonseca, Metaph. V, c. II, q. VI s. III; Toledo, I pars, Physic. II, c. III, q. II, concl. V, etc.). Sobre o problema da operatividade da substância, ensina o Anjo da escola que somente em Deus o primeiro princípio da operação ou o poder operativo se funde com a substância, e que na criatura esses dois elementos são realmente distintos, sendo a forma substancial o princípio da operação, não na medida em que opera imediatamente, mas na raiz das forças operativas, que dela surgem como acidentes próprios; assim, na botânica, diz-se que uma raiz está frutificando por causa dos frutos que carrega pelo caule e dos ramos que dela saem.

Da mesma forma, a alma (que é o princípio das ações vitais, da nutrição, da geração, da sensação, da inteligência e da vontade), incapaz de produzir qualquer um desses atos imediatamente, os produz por meio de potências apropriadas que são chamadas de motiva, nutritiva, aumentativa, generativa, sensitiva, etc. Este é o ensinamento de Santo Tomás (em Ia parte, q. LIV, art. III; q. LIX, art. II; q. LXXVII, art. II; q; LXXIX, art. I da Suma Teológica).

Vejamos, por fim, cinco argumentos a favor da sentença de Escoto.

Cinco argumentos de Alípio Locherer (em Clypeus philosophico-Scotisticus, Vol. II, Lib. II. Physic., Disp. III, art. I, §. II, conclusio. II) a favor da imediatez operativa da substância primeira.

I) O princípio do ente é o mesmo que o princípio da ação; mas vimos que a forma substancial é o princípio imediato do ente, portanto será também o princípio da ação.

Ademais, uma vez que uma coisa age quando está em ato, deve agir pela mesma forma por onde está em ato segundo; agora, o fogo, p. ex., não perfaz sua operação através dos seus acidentes, mas por sua forma; portanto, não produz outra ignição por seus acidentes, mas pela forma substancial; logo, os acidentes não são os meios desta produção.

II) Dois atos subordinados podem vir imediatamente do mesmo princípio, assim como o amor a Deus e o amor ao próximo vêm da mesma caridade; agora, ser e agir são atos subordinados: podem, portanto, ser produzidos imediatamente por uma única forma, que é a forma substancial. Assim, são produzidos imediatamente pela substância.

Ademais, o acidente não pode produzir algo da substância: portanto, a virtude produtiva imediata da substância é outra substância. Prova do antecedente: uma coisa menos nobre não pode produzir uma mais nobre; agora, o acidente é menos nobre que a substância, o que é manifesto por sua razão de inerência; portanto, não pode produzi-la. Ergo

III) Uma vez suposto que a substância não atinge imediatamente e por si mesma sua produção, tal deverá ser atingida por outra; este outro ser será, pois, substância ou acidente? Se o primeiro, atingimos a conclusão querida; se o segundo, o imperfeito terá produzido o perfeito, o que é manifestamente falso. Logo…

IV) Se a forma substancial exigisse outra uma virtude adicional para agir, isso revelaria uma perfeição ou imperfeição: uma perfeição não é possível, porque Deus, infinitamente perfeito, não precisa operar a partir de uma virtude intermediária; uma imperfeição também não, uma vez que a forma acidental, mais imperfeita, opera imediatamente e por si mesma: portanto, por nenhuma razão, a substância precisa de uma virtude intermediária e pode operar imediatamente/por si mesma.

Além disso, a virtude instrumental, de acordo com Escoto, nada mais é do que um movimento passageiro e uma emanação transitória derivada da causa principal; agora, os acidentes da forma substancial estão nela, não como movimentos e emanações transitórios, mas como formas estáveis ​​e pacíficas: é, portanto, errado chamá-las de virtudes instrumentais da substância.

V) Com base em um argumento teológico: a substância do anjo cumpre imediatamente as funções de uma espécie impressa (espécie impressa) no conhecimento que o anjo tem de si mesmo: portanto, ele age imediatamente. Prova da consequência: A espécie impressa realmente contribui para o intelecto, de acordo com a opinião mais comum. Ergo

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Nascido em 1996. Estudante de Psicologia pela Faculdade da Amazônia — FAMA. Tomista e apreciador do escolasticismo de modo geral.

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