A natureza é formalmente universal “a parte rei”?

“Scotia me genuit (Escócia me gerou), Anglia me suscepit (Inglaterra me recebeu), Gallia me docuit (França me ensinou), Colonia me tenet (Colônia me tem).”

Escoto e sua escola argumentam que o universal sobrevém em ato na natureza, antes da operação do intelecto; o que não significa dizer que a mesma entidade (ou “entitas universalis”) exista simultaneamente em muitos realmente diferentes, senão que em uma coisa idêntica existente no real existem duas entidades ou duas razões formais de ser, dos quais uma é característica própria dessa coisa, porém a segunda não é própria, embora seja apropriada; uma vez que ela, tomada em si mesma, pode estar em outra coisa realmente diversa.

Assim argumenta Escoto na Sententiarum, I, dist. II, q. VII e dist. V,q. I; Antônio Andreas na Quaestiones super Metaphysicam Aristotelis, Lib. VII, q. LXXI; Antônio Trombetta na opus in Metaphysicam, Lib. VII, q. XLII; finalmente, Alípio Locherer em seu Clypeus Philosophico, vol. I, Disp. V, art. II.

Trombetta cita a Santo Alberto, o célebre mestre de Santo Tomás, como um dos que patrocinam sua doutrina; cita como exemplo o último tratado do De praedicamentis, capítulo segundo, onde Alberto parece cortejar que a universalidade é certa paixão das coisas.

Entre os notáveis da Companhia de Jesus, o Cardeal Toledo em seus comentários ao De anima (especialmente no Lib. I, q. II, art. II), assinala que semelhante doutrina foi admitida pelo mesmo Santo Tomás, uma vez que jamais negou que a entidade universal se encontre por parte da coisa enquanto nela há uma natureza que, por si mesma, contém um caráter (univocamente) comum a muitos.

A segunda opinião aparece em Paulo de Veneza, que ainda no prólogo dos comentários In praedicabilia Porphyrii, argumenta que os universais estão absolutamente na natureza real, mas estão relativamente no intelecto por suas semelhanças representativas; assim, p. ex., a natureza do homem implica duas propriedades: I) ser universal, que é conferida em absoluto por parte da coisa; II) ser predicável, que inclui uma ordem ao intelecto possível, que está relativamente no intelecto e em ordem potencial “a parte rei”.

A terceira opinião aparece em Domingo de Soto, que na q. II proemial de seus comentários In Porphyrii Isagogen anuncia que a natureza compreende a entidade universal quando sua espécie é abstraída em ato dos fantasmas (espécies ou imagens sensíveis), e é apresentada como objeto ao intelecto. A natureza das coisas materiais, antes de qualquer operação do intelecto agente, seriam espécie ou gênero, ainda que não abarcasse a universalidade “in actu”; seria, portanto, espécie ou gênero (como quando dizemos que Pedro é homem ou que o cavalo é um animal) sem qualquer operação do intelecto, embora ainda não revertida da universalidade que formalmente é capaz, depois da consideração da inteligência, de ser predicada de muitos e para muitos.

Esta opinião é explicitamente combatida por João de S. Tomás na segunda parte (questão segunda e terceira) do Ars logica; seu realismo é um tanto exagerado ainda.

Chegamos, por fim, na opinião tomista; aquela exposta por Goudin na Philosophia Thomistica (Vol. I, Log. Majoris, prima pars, Disp. I, q. I, art. II,r), que diz o seguinte:

A natureza pode ser vista de três formas, conforme destaca o Cardeal Caetano (em De ente et essentia commentaria, cap. IV); primeiro, como está incluída nos singulares, como a natureza humana em Pedro e em Paulo; segundo, enquanto é concebida abstratamente pelo nosso espírito dos singulares: assim, p. ex., que o geômetra considera o triângulo, abstraindo todos os triângulos que existem; terceiro, precisamente em si mesma, i. e., em relação aos predicados essenciais que convém a ela em todos os lugares e sempre.

À vista disso, dizem os tomistas: a natureza não é formalmente universal em si mesma, nem como existe nas coisas, mas apenas na inteligência; assim, a natureza do homem ou do cavalo não são formalmente universais antes da operação do intelecto, nem constituem espécie ou gênero antes da mediação (ativa) de segunda intenção do mesmo. Nas palavras de Goudin: “[…] a natureza que recebe a intenção de universalidade está apenas no singular (está potentialiter, não formaliter, acrescento eu), já a intenção da universalidade está na inteligência”.

Vejamos, finalmente, os cinco clássicos argumentos da escola de Escoto a favor de sua sentença.

Cinco argumentos de Alípio Locherer (em Clypeus philosophico-Scotisticus, vol. I, Disp. V, art. II., Lib. IV, q. II) contra a concepção tomista de “entitas universalis”:

I) A divisão numérica que separa a natureza de Pedro da natureza de Paulo não destrói a unidade específica; portanto, a natureza permanece especificamente uma em Pedro e em Paulo. Prova do antecedente: a unidade é removida apenas pela divisão que se opõe a ela; mas a divisão individual não se opõe à unidade específica, pois são de ordens diferentes; assim, uma não é removida pela outra. Ergo, a unidade específica permanece formalmente a mesma por parte dos indivíduos.

II) A natureza é formalmente una em muitos a parte rei (propriedade unívoca unum in multis do universal); por onde ela é universal. Prova do antecedente: o que não é formalmente dividido é formalmente uno; agora, a natureza de Pedro não está dividida a parte rei/formalmente da natureza de Paulo; portanto, isso torna formalmente apenas uma natureza, mesmo por parte da coisa. Prova da menor: a divisão formal é a divisão específica, como a divisão material é a divisão numérica; agora, Pedro e Paulo não estão atualmente e, na realidade, especificamente divididos; logo, não estão formalmente divididos.

III) A natureza de Pedro é, de fato, distinta da natureza de Paulo, e o homem Pedro do homem Paulo; mas tal divisão ocorre apenas por acidente, devido a diferença numérica, e não de maneira substancial e formal: portanto, apesar disso, existe formalmente apenas um homem a parte rei. Ergo

IV) A unidade é a negação da divisão, pois o uno é o que não está dividido lógica, física ou metafisicamente; as naturezas, contudo, recusam a divisão formal. Logo… São unas formalmente. Ademais, toda a natureza, p. ex., a natureza humana, recusa a singularidade “secundum se” e essencialmente: portanto, é por si mesma e essencialmente universal.

V) Do lado da coisa há gêneros e espécies; agora, esses gêneros e espécies são algo universal: portanto, existe um universal por parte da coisa. Além disso, todos os indivíduos são definidos por uma única definição; logo, a natureza de todos os indivíduos é una (e fisicamente unívoca, acrescento eu) neles.

Nascido em 1996. Estudante de Psicologia pela Faculdade da Amazônia — FAMA. Tomista e apreciador do escolasticismo de modo geral.

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