Breve comentário ao artigo “Analytic Appropriations of Univocity” [COM APÊNDICE]

“Há algo, senhores, de sobre-humano nos escritos de Santo Tomás de Aquino, algo que não nasce só das faculdades do homem, senão que nasce da vontade de Deus pela graça, daquele Deus que, porque quis lhe encheu do espírito de inteligência e derramou sobre ele como chuvas máximas de sabedoria.” — Norberto Del Prado O.P. (Panegírico de Santo Tomás).

Em seu artigo “Analytic Appropriations of Univocity” o conhecido escotista Lee Faber propõe em seu blog uma proposta digna de nota acerca da univocidade e analogia do ente. Em termos gerais, seus esforços se concentram na busca de uma linha média de convergência entre Escoto e Tomás, bem como de suas respectivas posições sobre a matéria que aqui brevemente iremos comentar.

Para facilitar mencionaremos apenas os pontos cardeais do artigo, para em seguida comentá-los ordenadamente.

I- “Nós vimos à visão de Aristóteles da univocidade. Em sua visão a equivocidade ocorre quando o nome é o mesmo, mas a definição é diferente. Na Metafísica ele admite um tipo de equivocidade que é “focada” ou tem significados relacionados e usa a saúde como exemplo. Esta é a analogia de Aquino”.

— Falso. O exemplo em questão pelo autor citado localiza-se na Metafísica, IV, I, MIII, onde Aristóteles terminará por negar que termos como “saudável” e “medicina” sejam predicados com equivocidade (ou de maneira homônima) na medida em que possuem uma “ratio” única e determinada, o que repugna a equivocidade. Logo, tampouco há “equivocidade focada” ou coisa semelhante. O que verdadeiramente se pode falar são dos “pure æquivoca” ou também dos “æquivoca in communi” (que de certo modo incluem os análogos).

Ademais, os exemplos de Aristóteles na Metafísica não abarcam totalmente a analogia de Santo Tomás. No máximo, compreendem imperfeitamente (como assinala Giovanni Di Napoli) uma analogia de proporcionalidade e atribuição extrínseca tal como entendida pela interpretação clássica de Card. Caetano, porém há ainda uma analogia de atribuição intrínseca nos textos de Tomás (como bem salientava Francisco Suárez), porque como faz notar João de S. Tomás: no Aquinate a noção do ente é análoga segundo uma dupla analogia, de atribuição e de proporcionalidade. Isto é, pois, a conciliação mesma da interpretação caetanista e suarezista dos textos do Doutor Comum (o ente é análogo formalmente com analogia de proporcionalidade, porém incluindo virtualmente uma analogia de atribuição). Assim sendo, dizer que os exemplos por Aristóteles citados abarcam a posição tomista acerca da “analogia entis”, de modo que se possa julgar que “esta é a analogia de Aquino” é descambar no perigo de um reducionismo barato completamente alheio à verdadeira profundidade do pensamento de Santo Tomás.

II- “Aquino vê três opções: equivocidade, univocidade e analogia. Misteriosamente, ele pensa que analogia é um médio entre os extremos e assim não comete a falácia da equivocação”.

— Não abordarei aqui a novidade elencada por alguns ecléticos modernos (como Juan Bussolini S.J.) que baseados em certos trechos da “Quaestiones subtilissimae in Metaphysicam”, acabam por sustentar que Escoto admitiu certa analogia do ente, e que, por consequência, também enxergou três opções, a saber: analogia, equivocidade e univocidade. Contudo, prescindindo tais fatores, não há nada de “misterioso” no pensamento de Tomás quanto à analogia, que de fato se situa como um médio entre os extremos: a analogia não se encontra absorvida na equivocidade ou na univocidade justamente porque possui uma “ratio simpliciter diversa” e “secundum quid” a mesma, logo, participa de ambas como um modo de atribuição lógica intermédia que não é um, nem tampouco é outro (conforme destaca Card. Caetano em seu “Divi Thomae Aquinatis, De Ente et Essentia Commentaria”, Cap. II, q. III — §XXI, que em relação a analogia destaca sua propriedade média idêntica segundo-um-quê e diversa segundo-um-quê). Por isso mesmo, aliás, que Santo Tomás jamais descambou em falácia da equivocação e muito menos confundiu analogia com equivocidade (em sentido contrário ao que o texto busca transparecer).

III- “Pois é claro da explicação de Scotus que ele está primariamente interessado em conceitos, e que não há nenhuma correspondência “real” entre o conceito unívoco de ser e o ser fora da mente”. Em outro momento Lee Faber diz: “pois Scotus pensa que a univocidade está no nível do conceito”.

— A univocidade do ente no âmbito lógico e de razão (seu modo de contração em relação aos univocados) tem sido uma das formas corriqueiras que alguns escotistas modernos (p. ex. como Lossada, Fr. Wilches e outros) apelam para escapar das duras críticas de Capreolo, Ferrariense e dos demais tomistas quanto à existência de uma univocidade metafísica. Contudo, semelhante escape não encontra fundamento sequer na doutrina do beato franciscano, que acerca do “ens commune” assume-o como sujeito da Metafísica (Opus Oxoniense, I — d. III, q. V, n. X) que enquanto tal é considerado embaixo de um aspecto em que é real e não lógico ou de razão (do contrário, confundir-se-ia o sujeito da Lógica com o da Metafísica).

Ademais, esta opinião não encontra confluência alguma com o que disseram os melhores intérpretes do Doutor Sútil: como Trombetta (em Metaphysica, XI, q. I, ad. I) e Antonio Sirecto (em seus “Formalitates”) que relativamente ao “ens” predicam-no univocamente ao ente real e de razão.

IV- “[…] Enquanto Aquino pensa que analogia está no nível do real”.

— Falso. Para Santo Tomás sua doutrina analógica se estende também ao nível do ente de razão, como se vê em De Veritate, q. I, art. XI, ad. V, ou no capítulo segundo de seus comentários à Metafísica IV de Aristóteles. Além disso, assim interpretam-no Capreolo (o príncipe dos tomistas) na nona conclusão da questão primeira, distinção segunda das “Defensiones”; Card. Caetano no capítulo oitavo do “De nominum analogia” e principalmente Diego Mas em “Metaphysica disputatio, de ente, et eius proprietatibus”, Lib. I, Cap. VIII, §LXXX–XC.

– Por Carlos Alberto.

Apêndice — Pontualização sobre a analogia e univocidade do ente

Segundo a doutrina de alguns escotistas modernos o ente enquanto tomado segundo o intelecto ou “ex parte mentis” (da parte da mente) é unívoco, na medida em que é um “non nihil” (não-nada), isto é, uma noção indeterminada que prescinde as diferenças genéricas e específicas, encerrando, portanto, uma significação única e absoluta quanto a forma de contração dos univocados [1], mas enquanto considerado “a parte rei” (da parte da coisa) é análogo, visto que encontra diversificação com a essência mesma com que se identifica [2]; de modo que há, pois, uma univocidade lógica (em ordem racional) e uma analogia metafísica (em ordem real).

Esteados nesta peculiaríssima doutrina, os que buscam mesclar Santo Tomás e Escoto logo destacam a anuência dada pelos escotistas, como François Jacquier em Institut. Philop., Pars I, Metaphysicae, Cap. II, Art. V — VIII [3], sobre a analogia para o ente real, crendo assim terem encontrado um ponto comuníssimo entre ambos os mestres. Porém, acerca disto diga-se que os que defendem semelhante opinião não fazem senão enfraquecer a posição tomista em detrimento de admitirem “expressis verbis” a posição dos adversários:

Em primeiro lugar porque como bem aponta-nos Diego Mas O.P. em Metaph. Disp., Lib. I, Cap. VIII, §80–90, a “analogia entis” se estende ao ente de real e de razão, a Deus e às criaturas, permeando até mesmo a substância e os seus acidentes; portanto, reduzi-la apenas ao ente real é não mais que enfraquecer a posição de Santo Tomás em benefício de uma quimérica conformidade: uma vez que a analogia se estende ao ente real e de razão e não há termo médio entre eles, logo, tampouco há margem para alguma univocidade, e, portanto, para alguma harmonização.

Em segundo porque restringir a analogia apenas ao ente real para assim resguardar a univocidade do ente de razão, não é senão repetir a sentença mesma dos escotistas [4]. À vista disso, não há verdadeira conformação.
__________________

Referências e notas:

[1] O ente é unívoco enquanto predicado quiditativamente de todos os inteligíveis (p. ex. do ente finito e do ente infinito, da substância e do acidente, etc.) com exceção das diferenças últimas e das paixões próprias do ente (os transcendentais), conforme destaca Escoto na Ordinatio I, d. III, p. I q. III.

[2] Sendo assim, a noção de ente se contrairia aos seus inferiores por modo de composição, uma vez que ao ser se acrescenta à essência pelo qual o ente se atribui e se torna análogo.

[3] Ouçamos ao escotista francês: “Porque apenas por parte do entendimento o ente pode ser verdadeiramente separado de suas diferenças, por consequência, o nome ente, na realidade e sem ação alguma do entendimento, não pode em um mesmo sentido convir a diversos entes, e, portanto, não é unívoco” (Cf. JACQUIER, François. Institutiones philosophicas Vol. I-II, Pars I, Metaphysicae, Cap. II, Art. V — VIII, p. 348).

[4] As incertezas acerca da natureza da univocidade se manifestam nas próprias discrepâncias da escola escotista. Entre os defensores de uma noção unívoca e genérica de ente estão Semery (em Log. d. IV, q. IV) e Arriaga (em Log. d. II, s. IX); outros discípulos do mestre franciscano, como Bartolomeo Mastri, patrocinam uma noção de ente unívoca, porém com graus de analogia, de sorte que a univocidade pura só se realizaria entre a espécie e seus indivíduos; no gênero, no entanto, haveria certo grau de analogia, porque, por exemplo, o conceito de animal embora unívoco na espécie racional e na irracional, não se acha em igual grau entre indivíduos da mesma espécie, entre racional e racional, irracional e irracional, etc. Outros ainda, conforme relata Amor Ruibal, limitam a doutrina do ente unívoco apenas aos seres contingentes e para substância e o acidente. Finalmente, há aqueles que para escapar dos inconvenientes de sua doutrina terminam por rechaçar a definição aristotélica de gênero, adotando uma versão mitigada.

Nascido em 1996. Estudante de Psicologia pela Faculdade da Amazônia — FAMA. Tomista e apreciador do escolasticismo de modo geral.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store