De Capreolo a Cornélio Fabro: breve pontualização sobre o escotismo e o paleotomismo

Bene scripsisti de me Thoma” disse o nosso Senhor Jesus Cristo para Tomás.

Nos tempos de Capreolo (o “”) a doutrina de Santo Tomás encontrava-se já em ascensão, após passar pelo crítico momento (onde respirava por aparelhos) incitado pelos efeitos da condenação do bispo francês Étienne Tempier, que terminaram por instigar as constantes investidas franciscanas e agostinianas contra o falecido Santo (principalmente pela sua rejeição à tese da “”), investidas essas que receberam o nome de “corretivos”. O mais conhecido dentre eles veio a luz sob a pena do inglês franciscano William de la Mare, que em sua obra (de inspiração boaventurense) “” contrasta cento e dezessete teses tomistas com as agostinianas.

Mais tarde com Escoto não poderia ser diferente: como franciscano que era não pôde senão defender as teses da ordem, e assim o fez em escritos principais (“”, “” e outros), sustentando em contrário a tudo o que ensinara Santo Tomás, embora curiosamente em nenhum momento o cite de modo direto. A respeito disto recordemos o paralelo que faz o historiador dominicano Guillermo Fraile entre as posições essenciais defendidas por ambos, onde no fim se defrontam quinze teses radicalmente opostas. [1]

Com efeito, na época de Escoto as obras de Tomás ainda eram alvo de constantes perseguições e censuras: onze dias depois da condenação do bispo parisiense, o arcebispo de Cantuária — Robert Kilwarby censura um conjunjo de trinta proposições, entre as quais se encontravam algumas de Santo Tomás relativas a unidade da forma substancial; o sucessor do arcebispado de Cantuária, John Peckham, reafirma a condenação de seu predecessor, estendendo-a para outras teses em 1286, além de excomungar o autor da “”, o venerável tomista Ricardo Knapwell.

Anos antes em 1282, o capítulo geral da ordem franciscana celebrada em Estrasburgo promulga uma proibição a leitura da Suma Teológica, a restringindo apenas aos professores expertos no corretivo de William de la Mare, em provável resposta aos notáveis testemunhos de Santo Alberto em 1277, que com setenta e sete anos dirige-se a Paris em defesa de seu falecido discípulo, proclamando, segundo o relato do Frei Hugo de Luca (que o acompanhava), com muitíssima autoridade ao estudo geral do convento parisiense:

E diante da eminentíssima defesa de Santo Alberto, a ordem dos pregadores finalmente desperta para a singular profundidade dos escritos de Santo Tomás, próprias de um mestre e de um grande doutor da ordem, e desde então se inauguraram os movimentos de resposta, os chamados “(Corretivos do Corruptor): por fim os inimigos de Tomás encontraram a devida resistência. E já nos capítulos gerais em 1279 e 1286, os mestres dominicanos adotaram-na como doutrina a ser seguida, por onde se frutificaram os estudos tomistas.

Um dos frutos de tais desenvolvimentos é Capreolo (†1444), um autêntico tomista do século XV cujos esforços depreenderam-se em não somente responder os adversários da catedrática doutrina de Santo Tomás (como Aureolo, Durando e Escoto), mas como também em ponderar sobre os desvios dos próprios tomistas com relação ao pensamento original de seu mestre. As incomparáveis “” se situam entre as maiores preciosidades da escola tomista, e talvez de toda escolástica, além de representarem um árduo e solitário labor, único até então. Acerca delas declara acertadamente o historiador alemão Martin Grabmann:

Por certo, nelas se derrotam (de fio a pavio) as principais objeções escotistas e dos demais detratores [4]; à vista disso Capreolo estabelece a superioridade de Santo Tomás frente aquela escolástica já corroída por um insipiente nominalismo, consagrando-se assim como o “”.

Já no escolasticismo posterior, ou Cardeal Caetano (†1518) mantém os ânimos acirrados em seus embates com o escotista Antonio Trombetta, salientando as inadequações da posição adversária não somente no que cerne as doutrinas de Santo Tomás, mas como também as de Aristóteles. Em seu opúsculo “”, capítulo oitavo, Caetano repele todo e qualquer univocismo da “dizendo:

E em seus celebres comentários ao “” de Santo Tomás, assinala contra Escoto a irredutível incompatibilidade de sua “” com o dogma da Santíssima Trindade, e, por consequência, com a doutrina da simplicidade, uma vez que a distinção mediante a formalidade da natureza de cada perfeição assume em Deus distinção em ato (e distinção maior, segundo Caetano, que a distinção real), o que repugna. [6]

Ainda no século XVI, Diego Mas O.P. (†1608), em sua magna obra “” aponta contra escotismo de Trombetta e Sirecto, a analogia do ente e sua respectiva abarcabilidade que permeia e se estende ao ente de real e de razão, a Deus e as criaturas, e por fim, a substância e os acidentes, aniquilando completamente os intentos conciliativos de alguns autores, que para unir Escoto e Tomás enfraqueciam a analogia do ente, reduzindo-a apenas ao ente real para assim afirmarem a univocidade do ente de razão. Mas como a analogia estende-se a ambos e não há termo médio entre eles, logo, tampouco há margem para algum univocismo, e, portanto, para alguma conciliação. [7]

No seguinte século o francês Antoine Goudin O.P. (†1695), escritor da densa obra dividida em quatro tomos “”, reporta o exagerado realismo escotista acerca da atualidade formal do universal “, que se traduz em afirmar a universalidade da natureza prescindindo o trabalho da inteligência: posição aberrante que termina por negar a propriedade “” do universal em favor da tese de que o singular identifica-se com sua natureza (p. ex. a natureza de Pedro), mas não formalmente em ato com ela, distinção sutilíssima, porém nula segundo Goudin [8], disposta como meio explicativo da multiplicação dos indivíduos dentro da mesma espécie.

E com tomismo alemão de Ludwig Babenstuber (†1726) [9] e Veremund Gufl (†1761) [10] acentuaram-se as críticas à “escotista, e suas acérrimas inadequações com o aristotelismo-tomista. Tempos depois, em quatro de agosto de 1879 com a promulgação da Encíclica “” de Leão XIII avistou-se um novo alvorecer para o escolasticismo, alvorecer este que se semeou em todos os colégios e universidades católicas, de onde surgiram ilustríssimos nomes que terminaram por inaugurar o que posteriormente se conheceria com o nome de “neoescolástica”. [11]

Entre esses nomes está o jesuíta Tilmann Pesch (†1899) que em suas “” observa precisamente contra Escoto que sua distinção intermédia e formal é não mais que uma precária distinção de razão [12]; os discípulos de Cardeal Zeferino (†1894) — Pedro Maria López (†1934), Dom Manuel Orti y Lara (†1904) e Pidal y Mon (†1913) empreendem também poderosas ofensivas contra o doutor franciscano: Pedro Maria no capítulo IV de sua“[13], argumenta favoravelmente a não distinção da “”objetiva do ser de seus conceitos inferiores como o de substância e acidente; em suas “[14] aduz o polemista Orti y Lara extraordinárias provas contra a distinção real suposta pelos escotistas no que se refere ao todo e as partes que o compõe (tomadas conjuntamente); já Pidal y Mon em sua obra “” onde se compendiam e sintetizam os principais pontos da vida e obra do Doutor Angélico, acerca de Escoto diz:

Além de narrar uma curiosíssima história de um jovem franciscano com Santo Tomás e São Francisco:

Sobre o constitutivo lógico da essência divina, D. José Daurella (†1927) toma como inadmissível em suas “” a posição escotista da infinidade radical definida como a exigência de todas as perfeições possíveis, e para rebatê-la nos aponta tão somente que a infinidade radical não se pode conceber senão em um sujeito cuja essência o determina, logo, não constitui, mas antes supõe já constituída a mesma essência. Desta forma, conclui Daurella, a constituição fundamental da essência divina “ não pode ser a infinidade radical [17]. Esta crítica reaparecerá posteriormente no escritor colombiano Rafael María (†1930), autor das “” ditadas no colégio maior de Nossa Senhora do Rosário. [18]

E por fim, Cornélio Fabro (†1995) no século XX, em seu artigo a revista francesa “” chamado “” [19] resgata uma noção que há séculos estava sendo escamoteada pelo escolasticismo-tomista: o “” intensivo, muitas vezes confundido com o mero “” (existir) por influência das doutrinas de Suárez que tampouco estava ciente de tal distinção (para ele a “” e o “” identificam-se). Os impactos desta redescoberta abalaram muitíssimo os alicerces da neoescolástica vigente: tratava-se do ressurgir da tese mais original e importante do chamado . Padre Meinvielle (†1973), autor da magistral refutação ao “humanismo integral” de Jacques Maritain, indaga-se:

Esta perplexidade longe de ser descomedida, ilustra-nos bem a dimensão dos achados do tomista italiano, que nos auxiliam a contemplar o abismo que há entre Escoto e Tomás: diferente do doutor e beato franciscano, Santo Tomás não se deteve no ente, buscando o que há de mais íntimo e profundo em todas as coisas: o “”. E não alcançando a verdadeira noção de ente, Escoto sequer pôde vislumbrar a distinção tomista entre o “” e o “”, entre o ente (“) e o ser (“), distinções tão sutis que ironicamente escaparam ao “”.

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Referências e notas:

[1] “Que glória é para um vivo ser louvado por mortos? Supondo em sua declaração que frei Tomás era vivo e os outros os mortos. E afirmando gloriosos e excelsos louvores de frei Tomás, ele disse que estava disposto a ir a um exame frente a peritos defender os escritos de frei Tomás como reluzentes de verdade e de santidade”. (., , n. 82). Tradução nossa.

[2] FRAILE, Guillermo. (Tomo II, Vol. II). . , Madrid, BAC, 1986, p. 508.

[3] GRABMANN, Martin. , Milano, 1937, p. 137.

[4] Capreolo na nona conclusão da questão primeira, distinção segunda das “”, destaca contra Escoto a analogia do ente a Deus e as criaturas, ao “” e ao “”, rechaçando em sentido absoluto a hipótese univocista do doutor franciscano (. CAPREOLO, Johannes. I , Dist. II, q. I, ).

[5] “Para a comparação três coisas são indispensáveis e suficientes: a distinção dos extremos, a identidade deste em que se produz a comparação, e o modo de ser do mesmo entre os extremos, isto é, se mais ou menos perfeito; contudo a unidade ou identidade proporcional está contida sob a identidade e a unidade, por consequência, se em uma diversidade de objetos uma coisa proporcionalmente idêntica possui o ser igualmente mais ou menos perfeito, a comparação segundo este termo proporcional poderia se realizar, pelo menos por uma comparação não unívoca, mas análoga” ( CAJETANUS, Thomas de Vio, Cardinalis. , Cap. VIII,87). Tradução nossa.

[6] ., Cap. VI, q. XIII.

[7] MAS, Diego. Lib. I, Cap. VIII, §80–90.

[8] GOUDIN, Antoine. (Tomo I), , Disp. I, q. I, art. II.

[9] BABENSTUBER, Ludwig. i, , Disp. I, art. III, §3.

[10] GUFL, Veremund. (Tomo III), , Tract. I, art. VI, §2.

[11] Neoescolástica composta majoritariamente por tomistas.

[12] PESCH, Tilmann.(Vol. II), Pars II, q. IV, §1345.

[13] LOPEZ MARTINEZ, Pedro María. (Vol. I), Valencia, 1899, Sec. I, Cap. IV.

[14] ORTI Y LARA, Juan Emanuel. (Vol. I), Madrid, 1887, XXXVIII, §388.

[15] PIDAL Y MON, Alejandro. , Madrid ,1875, Cap. V, p. 482.

[16] ., p. 488–489.

[17] DAURELLA Y RULL, José. , Valladolid, 1891, , Cap. II, I, LXXXIII.

[18] MARÍA CARRASQUILLA, Rafael. , 1914, , Cap. II, art. I, §468.

[19] ELVIO, Fontana. , Argentina, 1995, p. 26.

Nascido em 1996. Estudante de Psicologia pela Faculdade da Amazônia — FAMA. Tomista e apreciador do escolasticismo de modo geral.

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