Do catecismo do belo segundo Santo Tomás

Por Carlos Alberto

No que consiste, para Santo Tomás, o belo?

— O belo se diz das coisas que, uma vez contempladas, causam deleite na vista (quae visa placent). [1]

O que se entende por causar deleite na vista?

— Tal definição, que poderíamos denominar como descritiva [2], na medida em que explica o belo pelos efeitos produzidos em nós, quer apontar a beleza como perfeição objetiva das coisas que, uma vez conhecidas, repercutem em nós subjetivamente pelo deleite ou complacência do apetite.

O que se entende por perfeição objetiva?

— Por perfeição objetiva entendemos toda propriedade que é dada real e objetivamente por parte das coisas, que independem, portanto, em certo sentido do sujeito que as conhece ou apetece. Se buscarmos a razão da complacência que nos produz a contemplação da coisa bela, a encontramos na perfeição desta coisa. Somente aquilo que é perfeito ou acabado em seu gênero é capaz de despertar nossa complacência. O imperfeito não nos agrada nenhuma forma. O fundamento objetivo da beleza, portanto, está intimamente ligado com o que é perfeito.

O perfeito, então, nos causa agrado precisamente enquanto é perfeito?

— O belo não nos cativa enquanto é perfeito, o fundamento do prazer estético se encontra em certa maneira com que o perfeito se oferece ou se manifesta à nossa contemplação. O perfeito resplandece, reluz, por assim dizer, em virtude de sua própria perfeição. Tal resplendor se apresenta à nossa contemplação e excita nossa complacência. Assim, pois, se o belo é o que nos apraz quando o conhecemos, deveremos colocar a razão objetiva do belo naquela realidade, graças à qual o perfeito produz prazer em nosso ânimo, e, portanto, no resplendor da perfeição. Então, finalmente, encontramos a definição essencial [3] do belo: a beleza é o esplendor com o qual e sob o qual o perfeito, em virtude de sua própria perfeição, se apresenta às nossas faculdades cognoscitivas, ou, em sentido simples, é o resplendor do perfeito (splendor perfecti). [4]

O resplendor do perfeito convém em sentido meramente sensível?

— Não apenas em sentido puramente sensível, porque o suprassensível ou espiritual brilha, em virtude de sua perfeição, com certo resplendor ideal e se oferece a nossa inteligência e nos causa deleite.

Do exposto o que podemos depreender até aqui?

— Do exposto inferimos que a beleza tem verdadeiro caráter objetivo, em outros termos, que é um atributo real dos seres, não uma coisa totalmente subjetiva. Apesar do antigo adágio “de gustibus non est disputandum”, a beleza é absolutamente a mesma para todos os homens. Poderá ocorrer que certas pessoas ou povos possuam um gosto viciado, que em outros homens as faculdades perceptivas do belo não estejam suficientemente educadas [5], que alguém não aprecie o belo por estar influído por prejuízos acidentais, etc., porém, aquilo que é perfeito e resplende em sua perfeição é por necessidade belo em si mesmo, independente do prazer que sua contemplação produza.

Não há, por assim dizer, nenhum aspecto subjetivo do belo?

— O que há verdadeiramente é que o belo das coisas se refere às nossas faculdades cognoscitivas [6], e por esta razão oferece também um aspecto subjetivo. E aqui é indispensável advertir que o chamado sentido do belo, denominado por outros como sentimento estético ou bom gosto, não é uma potência especial da alma e distinta das demais, senão que é a maior ou menor aptidão que possuem nossos sentidos mais nobres, a saber: a vista, o ouvido, a imaginação e o intelecto para distinguir e admirar o que é belo. [7]

A percepção do belo está essencialmente ligada à inteligência?

— A percepção da beleza dos seres espirituais é obra exclusivamente do intelecto; porém, os seres que estão na fronteira do sensível e do inteligível, como o homem, a percepção do belo começa nos sentidos e termina no intelecto, a única potência capaz de compreender a beleza e de julgar acerca do resplendor da perfeição das coisas; daí que a denominação do sentido do belo, com que ordinariamente se expressa nossa aptidão para perceber a beleza seja uma denominação imprópria, porque dita aptidão reside principalmente na inteligência, faculdade radicalmente distinta dos sentidos e muito superior a ordem sensível. Assim se explica, por exemplo, que os animais irracionais sejam incapazes de perceber e admirar o belo, por mais que certos objetos belos lhes causem às vezes impressões agradáveis.

A percepção do belo possui alguma conexão com o apetite?

— Certamente! Na medida em que consideramos o belo como uma espécie particular de bondade, pois responde a um certo apetite que, ao contemplá-lo (através das faculdades cognoscitivas), se aquieta pelo deleite e complacência [8]. Trata-se, pois, de uma espécie particular de bem, uma vez que todo “bonum” produz júbilo quando é alcançado, as coisas que são belas, contudo, geram um agrado especial pelo mero fato de conhecê-las: é, portanto, um puro deleite desinteressado. Assim, o apetite do qual procede o gozo ou agrado, particular da apreciação estética, depende essencialmente do conhecimento do belo, não da posse do objeto. O belo está intimamente unido com a verdade e a bondade das coisas, até o ponto que não se distingue delas realmente, mas mentalmente ou segundo nosso modo de conceber [9]. Uma mesma coisa se diz boa, enquanto é apetecível, e bela, enquanto sua contemplação deleite; e uma mesma coisa se diz verdadeira e bela com relação ao intelecto quando é simplesmente capaz de determinar em nós um conhecimento verdadeiro dela ou quando, ademais, é capaz de produzir deleite em nosso ânimo pela contemplação.

Podemos dizer, então, que em essência todas as coisas, sem exceção, são belas?

— Segundo sua essência todas as coisas, sem exceção, são belas, porque todas as coisas estão dotadas de perfeição essencial e pela razão da beleza ser o resplendor da perfeição. Se às vezes não percebemos claramente a beleza intrínseca ou essencial de certas coisas, não a percebemos justamente por razão de nossas potências cognoscitivas são limitadas. Neste sentido, ou seja, em consideração à perfeição essencial dos seres, podemos afirmar com vários tratadistas da escola, que a beleza é uma propriedade transcendental do ente [10]. Porém, tal afirmação é incabível se se trata da beleza adequada ou completa, porque tal não dita somente do resplendor da perfeição essencial das coisas, senão que também é da perfeição acidental das mesmas. De sorte que, se todos os seres são belos enquanto são essencialmente perfeitos, nem todos os seres são adequadamente belos, porque muitos carecem de perfeição acidental, ou seja, de alguma ou algumas daquelas realidades reclamadas por sua natureza. Assim, um homem com vícios pode ser dito belo, na medida em que é homem, ou seja, segundo a posse da perfeição essencial da natureza humana; porém não pode se chamar belo em sentido adequado, mas feio ou deforme, porque não é acidentalmente perfeito, quando lhe falta a realidade da virtude.

Se assim é, quais condições concorrem para constituição real da beleza?

— Três coisas são requeridas por parte do objeto belo para que sua contemplação suscite na alma o deleite de que tanto falamos [11]: a primeira é a integridade ou perfeição que deve ter cada coisa de acordo com sua natureza e fim; a segunda é a proporção ou conveniência entre os elementos dela, distintos uns dos outros com distinção ao menos virtual, os quais concorrem para unidade do todo, de tal modo que cada um deles corresponda a respectiva natureza da coisa; o terceiro é a claridade e suavidade, que tomada em sentido geral significa a clareza de determinada coisa em relação ao sujeito que a vê. A claridade ou resplendor que resultam do objeto, permitem ao intelecto sua plácida contemplação. Assim, onde há obscuridade não há beleza. O obscuro, o que falta luz ou que é ininteligível, não pode ser dito belo de nenhuma forma. Considerando a beleza neste aspecto, cabe dizer que o belo é proporcionado e harmônico, ou aquilo que consiste na devida proporção: a beleza é, portanto, a unidade na multidão e na variedade. Além disso, cabe adicionar ainda que o belo é o ordenado, porque há ordem em uma coisa quando suas partes iguais ou desiguais ocupam seu respectivo lugar ou estão em justa proporção, constituindo um conjunto harmônico. [12]

Que divisões são feitas geralmente sobre o belo?

— O belo divide-se, antes de tudo, em absoluto e relativo [13]. A beleza absoluta é Deus mesmo. Porque Deus possui a perfeição absoluta e infinita, e, à vista disso, possui também a absoluta e infinita beleza. A beleza relativa pertence aos seres criados. Esta beleza é puramente espiritual, ou puramente material, ou simultaneamente corpórea e espiritual como a humana. Porém, em todas as suas espécies, a beleza relativa não é mais que uma manifestação ou imitação da beleza absoluta; de sorte que o paradigma ou modelo de toda beleza relativa está nas ideias divinas, que são o exemplar de toda perfeição criada. A beleza se divide ainda em real e ideal: a primeira é dita dos seres existentes; a segunda, por sua vez, é formada pelo intelecto, purificando, aumentando e combinando, através da imaginação e com sua própria virtude, as belezas percebidas pelos objetos reais. Este modelo intelectual de beleza é denominado como belo ideal.

Em razão do objeto que se encontra o belo, tal se distingue em: corpóreo, intelectual e moral. Reside o primeiro nas coisas materiais: uma flor, uma estrela, um homem; o segundo, no intelecto e em suas operações: um belo conhecimento, uma bela demonstração; detém beleza intelectual, por exemplo, uma estrofe que não representa nenhuma imagem sensível conquanto produza deleite [14]. A beleza moral reside no bem honesto, como uma boa conduta ou uma ação em conformidade com as normas da reta razão e da lei eterna. Pela causa que a produz, o belo pode ser natural ou artístico. O primeiro tem sua origem na natureza: o mar, o céu estrelado; a segunda, na livre atividade do homem, coordenada a realizar o belo ideal e, assim, produzir as belas artes, que são a pintura, a escultura, a arquitetura (óticas); poesia e a música (acústicas).

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Notas:

[1] Cf. AQUINO, Tomás de. S.Th., Ia pars, q. V, art. IV.

[2] A definição descritiva é aquela que clarifica o objeto através da enumeração, em maior ou menor grau, de suas propriedades. À vista disso, Goudin em sua célebre “Philosophia juxta inconcussa tutissimaque D. Thomae dogmata” (Vol. I, prima pars, q. II, art. II, §. III) elenca três espécies de definição descritiva: própria, acidental e causal. Acerca da definitio propria, destaca o insigne tomista (Ibid., p. 75): “[…] é aquela que explica a coisa por suas propriedades; por exemplo, o homem é um animal político, capaz de conhecer, etc”. Do mesmo modo, Santo Tomás ao definir o belo, o define considerando sua propriedade deleitável e agradável em relação aos sentidos externos (como a vista), ao intelecto (que conhece o ente belo) e ao apetite (que é excitado, em razão do conhecimento, para o deleite e complacência). Em razão disso, estamos diante de uma definição eminentemente descritiva e própria.

[3] A definição essencial é aquela que explica a coisa por suas notas constitutivas essenciais ou com razão quidditativa (Cf. TONGIORGI, Salvatoris. Institutiones philosophicæ, Vol. I, Logicæ pars prima, Lib. I, cap. V, art. III, p. 78).

[4] A definição citada pertence ao célebre tomista Albert Stöck, que em seu Lehrbuch der Philosophie(Vol. II, p. 44), assinala que tal definição coincide com o ensinamento de Santo Tomás, quando destaca a claridade como requisito essencial do belo que, objetivamente considerada, é um intercambiável do resplendor de que falamos no texto.

[5] Cf. ROSSIGNOLI, Giovanni. Principii di filosofia secondo la dottrina di S. Tommaso, p. 42.

[6]Pulchrum autem respicit vim cognoscitivam” — (S. Tomás de Aquino, op. cit., loc. cit.

[7] Portanto, quando Santo Tomás diz, na passagem citada, que são belas as coisas “quae visa placent”, a palavra “visa” deve ser entendida em sentido lato, porque a vista não é a única faculdade com que percebemos o belo.

[8] Cf. ALVIRA, T. — CLAVELL, L. — MELENDO, T., Metafísica, EUNSA, Pamplona, 1998, p. 166.

[9] Em termos de escola: com distinção de razão raciocinada (raciocinada para indicar a passividade da razão), que é a distinção entre os conceitos de uma coisa, o qual é em si complexa de tal modo que só pode e deve ser aprendida por vários conceitos. A complexidade é o fundamento real para a pluralidade de conceitos; por outro lado, a debilidade do intelecto humano para aprender aquela coisa através de um só conceito é a razão psicológica ou subjetiva para pluralidade ou multiplicidade de conceitos (Cf. CHARMES, Thomas de. Theologia universa ad usum S. Theologiæ Candidatorum, Tract. De Deo et attributis, cap. unic., p. 29).

[10] Entre os que assentem esta opinião estão o Cardeal Zigliara (Summa Philosophica, vol. I), Sanseverino (Institutiones seu elementa philosophiæ christianæ, vol. II) e o padre Liberatore (Institutiones Philosophiæ, vol. I).

[11] S. Tomás de Aquino, op. cit., Ia pars, q. XXXIX, art. VIII.

[12] Não podemos esquecer, não obstante, que semelhantes definições de beleza referenciam propriamente as coisas corpóreas. Apenas em sentido análogo podem também se referir aos seres espirituais finitos (anjos em Teologia Dogmática), porque estes carecem de partes substanciais ou físicas. Não se pode dizer, em rigor, que as partes metafísicas das substâncias separadas constituem um todo harmônico, porque o todo supõe composição substancial ou integral: unicamente pode ser dito em sentido analógico. Menos ainda as definições acima mencionadas podem ser aplicadas à beleza divina, porque Deus é absolutamente simples.

[13] Cf. BLANC, Elie. Manuale philosophiae scholasticae, Vol. I, Metaphysica, cap. XXXI, §552–553, p. 276.

[14] A beleza intelectual pode ser entendida pelo resplendor das substâncias imateriais, nos quais se consideram as perfeições essenciais que podem ser comparadas, analogamente como dissemos, como as partes dos corpos.

Nascido em 1996. Estudante de Psicologia pela Faculdade da Amazônia — FAMA. Tomista e apreciador do escolasticismo de modo geral.

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