Dos significados da verdade em Francisco Patrício

“A verdade de uma coisa é a propriedade de ser predefinida por sua natureza.” — Avicena (em Metaphysica, cap. II).

Nos umbrais do aristotelismo escolástico os seguidores de Caetano, especialmente Diego Masio em sua Metaphysica Disputatio de Ente, Lib. IV, Cap. I, falavam de uma tríplice verdade: verdade in efficiendo, verdade in significando e verdade secundum essentiam; nos séculos XIV e XX discerniam os escolásticos modernos uma verdade metafísica-transcendental de outra formal-lógica, todas abarcadas na fórmula da adequação de Isaac Israeli.

Francisco Patrício assinalava no décimo terceiro livro de suas Discussionum peripateticorum, entre as numerosas definições de verdade do século XV, que o verdadeiro pode ser observado em seis sentidos diferentes: I) verdade das coisas; II) verdade dos sentidos; III) verdade do entendimento; IV) verdade dos hábitos; V) verdade da palavra; VI) verdade das escrituras (sentido semântico-prático).

A verdade das coisas, segundo Francisco Patrício, é deduzida da natureza da falsidade que se opõe a ela.

A falsidade pode ser tomada em dois aspectos: quando uma coisa não é, como “o homem é um leão”, porque sua natureza não é, de fato, isto; e que a coisa não aparece da maneira que é (exemplo de Patrício: como quando chamamos ouropel de ouro falso), porque é de outro modo que aquilo que nos aparece. A verdade da coisa também seria dita de duas maneiras contrárias às anteriores: primeiro, porque significa que uma coisa é, como o homem é animal. Segundo, porque significa que uma coisa é e aparece para nós como tal.

A verdade dos sentidos não é senão a verdadeira e não imaginária apreensão do sentido acerca de seu objeto formal-terminativo. É a verdade do qual menciona Aristóteles no Lib. III, cap. VI do De anima dizendo, v. g., que a visão em relação com as cores é verdadeira e no lib. II do mesmo livro quando ensina que o sentido não pode falhar per se sobre seu próprio objeto.

A verdade do intelecto é a verdadeira compreensão de seu objeto, não apenas considerado como tal. Como no intelecto existem várias tarefas e funções, que são a simples apreensão, a composição e a disjunção e o raciocínio, a verdade é encontrada em todos eles, porque em todos há verdadeira compreensão de seus objetos.

Precisamos notar que: embora seja verdadeiro que em Aristóteles esse tipo de verdade é adotado com mais frequência pela verdade composta encontrada na composição e divisão do que na verdade simples ou discursiva, como pode ser visto no prefácio do livro De Interpretatione, e no lib. V da Metaphysica, último capítulo, onde ele considera que a verdade do intelecto deve ser estabelecida apenas na composição e divisão. Os escolásticos antigos denominavam tal verdade segundo a forma e a essência, porque a razão completa da verdade é uma adequação do intelecto e da coisa.

A verdade dos hábitos, a quarta verdade, seria não mais que certa disposição pelo qual o intelecto pode se levar aos objetos que são oferecidos para serem contemplados de maneira direta, fácil e sem erros; Francisco Patrício assinala que em Aristóteles existem cinco hábitos deste gênero: sabedoria, entendimento, ciência, arte e prudência.

A quinta verdade, a verdade da palavra ou enunciado, seria um intérprete daquela verdade que está na mente (verbo mental ou espécie expressa, no vocabulário escolástico moderno); como o verbo mental não é manifesto, nos é concedido pela natureza o uso da palavra para que, com sua ajuda, como por um certo intérprete, entendamos o sentido na alma e a verdade formal no intelecto.

A sexta e última verdade elencada por Patrício é a verdade das Escrituras, que foi interpretada pelos filósofos posteriores num sentido semântico-prático que que denota o estabelecimento de signos para expressão dos nossos pensamentos para os ausentes, com quem não podemos falar. Seria, em razão disso, a verdade da escritura enquanto signo ou nota do discurso arguitive.

Caetano apelida a verdade da palavra e das escritura(s) como verdades in significando, porque a verdade da palavra significa a verdade da mente e a verdade da escrita expressa a verdade da palavra (há, portanto, uma reciprocidade semântico-formal).

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