O Molinismo jesuíta e moderno: suas grandezas e misérias

Texto publicado em Dezembro de 2017

“[…] Não ousaria afirmar que Santo Tomás — que desejo ardentemente ter como patrono e não como adversário — acreditasse que, só pela presença das coisas segundo o seu ser de existência, Deus conhece com certeza os contingentes futuros, mas que, ao contrário, parece-me que, se esta questão fosse examinada com cuidado, Santo Tomás teria afirmado o oposto.” — Pe. Luís de Molina (Concordia liberi arbitrii cum gratiæ donis, pars. IV, Disp. XLIX).

Acabo de encerrar o livro do notório Frei Domingo Basso O.P., que meticulosamente trata da controvérsia “De Auxiliis”, entre outros assuntos, e antes desta obra não deixei de esmiuçar também o “Traité du libre arbitre” do insigne Bossuet, tão elogiado pelos neotomistas do século XX (principalmente por Hugon e Garrigou Lagrange); e assim, após ter lido e conhecido bem ambos os lados desta polêmica, que como bem sabemos fervilhou novamente no século passado, especialmente entre os dominicanos franceses (que objetavam na revista “Revue Thomiste”) e os jesuítas espanhóis (que redarguiam na “Ciencia y fe”), penso que estou razoavelmente apto a fornecer algumas notas sobre a questão.

Não levantarei, contudo, as razões de ser por onde penso que os tomistas estão corretos no que diz respeito às posições clássicas defendidas contra os molinistas, a saber: dos decretos predeterminantes e da premoção física, mas antes os motivos que me levaram a concluir que o molinismo jesuíta (de um Valência ou de um Hellín) é muitíssimo superior ao dos seus representantes hodiernos (W. L. Craig, MacGregor e cia). Pois bem: antes de tudo, é importante salientar que os jesuítas desenvolveram edifícios intelectuais extraordinários para sustentar a doutrina clássica da Companhia: meios para conciliá-la com a doutrina do ato e da potência de Aristóteles e Santo Tomás; meios para conciliá-la com a “omnicausalidade de Deus no que cerne a produção do ser ou entidade dos efeitos (causalidade transcendental) das causas secundárias; meios para demonstrar como a ciência média aliada ao concurso simultâneo indiferente, jamais impõe potência passiva em Deus (como tanto objetaram os bañezianos); e frente a todas essas edificações do pensamento humano, tão seriamente construídas à vista da filosofia perene, nos deparamos com o esquecimento por parte de muitos defensores do molinismo moderno: o esquecimento daqueles que, com atitude de descobridores da pólvora, deslizam na superficialidade de sequer discernir no concurso simultâneo a ação proposta (oblatum) e conferida (collatum) de Deus; distinção tão cara aos esquecidos jesuítas, sem a qual não se resguarda e tampouco se compatibiliza a realização de duas operações concomitantes parciais no mesmo termo (cuja direção, como insistia o pe. Molina, é determinada somente pela criatura no concurso).

Os jesuítas buscaram ainda, em tal distinção, a saída para preservação da omnicausalidade divina sem subtrair a autodeterminação da vontade ao “ad unum”, visto que, para esses rigorosos filósofos, o concurso proposto não causa nem adiciona nada na vontade criada, senão que a deixa completamente indiferente, estimando que ela coopere para a produção deste ou daquele ato, desta ou daquela determinação livre, para que assim Deus ministre o concurso conferido, que, por consequência, se traduzirá na atuação por onde Ele causará a entidade da volição livre da criatura: produzindo o “ser” de sua determinação. Formidável solução! Tão formidável que levará os jesuítas posteriores, como o pe. Joseph Mendive (do século XIX), bem como os ilustres José F. Sagüés, Hellín, Miguel Nicolau, Joaquín Salaverri, entre tantos outros membros da Companhia (do século XX) a tomarem como superadas as exigências do adágio aristotélico-tomista “quidquid movetur ab alio movetur”, que até então eram encaradas, especialmente pelos dominicanos, como óbices insuperáveis para a doutrina molinista. E foram superadas, porque, como argumentam os jesuítas: somente com concurso geral e indiferente já se excita a autodeterminação das causas próximas para a operação, do mesmo modo que se garante o estatuto incomunicável de Deus como causa universal do “esse” criado, tal como é exigido pela Teologia Natural de Santo Tomás.

Não desconfiam os atuais herdeiros de Molina que, por certo, é absolutamente impossível que as criaturas sejam a causa do ser, ou do “actus essendi” (ato de ser); somos, como bem sabiam os escolásticos, no máximo a causa do “fieri” e não do “esse” do efeito; do contrário seríamos deuses, pois tamanho feito exige uma eficiência infinita que só a Deus pertence. Não conseguindo descortinar essa simples asseveração, como poderiam discernir o mais sublime? Ou seja: como poderiam especificar o concurso o oblatus do collatus? Talvez por não conseguirem que tais noções essenciais se encontram totalmente subtraídas de suas obras, que em comparação com a dos jesuítas só poderiam se denominar “molinistas” por analogia extrínseca.

Os atuais “defensores” também são míopes para vislumbrar soluções como a do Doutor Exímio, que foi seguida à risca por teólogos como pe. Fuetscher (célebre suarista do século passado) e que com relação a potência ativa, mais especificamente o estado de potencialidade do “actus virtualis”, rejeitava completamente a necessidade da “motio ab alio” para o trânsito da potência ao ato: rejeição que encontrou dificuldades entre os próprios jesuítas, mas que, de certo modo, se aceita, também supriria as exigências do adágio aristotélico-tomista antes mencionado.

Mas estão comprometidos os nossos molinistas com a filosofia perene? Estão eles imersos na mesma canteira que os jesuítas? Saltaria os olhos de qualquer membro da Companhia de Jesus, ou de qualquer defensor da boa filosofia, seja escotista, suarista ou tomista, saber que filósofos como William L. Craig defendem aberrações como um deus “temporal”, com uma simplicidade “mitigada”, que termina por inseri-lo no mesmo ciclo de defectibilidades das criaturas (uma forma de antropomorfismo já conhecido pelos teólogos católicos). Jamais poderíamos colocá-los, portanto, na mesma estatura de grandes metafísicos como Belarmino (que defendia a curiosa concepção da premoção indiferente), Francisco Suárez, Card. Billot, Ruiz de Montoya e tantos outros que não padeciam de hidrofobia antiescolástica.

Independente das respostas, a ocasião exige o seguinte conselho a quem se interessar pela cativante doutrina molinista: se queres conhecê-la bem, em toda sua robustez, não ide aos defensores modernos, mas ide aos jesuítas.

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