Verdades de difícil ingestão para o “tradicionalismo” moderno

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“Assim, de acordo com a doutrina oficial da Igreja, os pagãos e infiéis também podem alcançar o Reino de Deus. Não porque os ritos ou crenças de suas falsas religiões tenham alguma eficácia santificadora, mas porque eles podem vir a pertencer em espírito sem o saberem à verdadeira Igreja de Cristo e receber, por sua influência, as graças da salvação” — Royo Marín, O.P. (em ¿Se salvan todos?, p. 177).

(1) É sentença teologicamente certa que um judeu, um muçulmano e até um protestante podem se salvar como infiéis negativos (dentro da esquematologia revisada da infidelidade ver: Sebalde de S. Cristóvão, Q. Moralium pars II, cap. I §3; Antônio Elia, Element. Theol. Praticae, Cap. III, nota I; José Arcanjo, Th. Moralis Institutiones pars I, Tract. De Virtibus Cap. IV; Edmundo Simonnet, Inst. Theologicae, Tract. VII, Disp. VI, art. II; Nicolas Mazzotta, Th. Moralis, Tract. II, Disp. I, Cap. II, §1; Patrício Sporer, Th. Moralis, in I. Praecept. Decal., Cap. III, assert. I; João de Lugo, De Virt. Fidei divinae, disp. XII, n. 50; Suárez, De Fide, Tract. I, Disp. XVII, sect. I, n. 6), com uma fé implícita sobre muitas verdades da ordem sobrenatural.

(2) Não, este parecer não viola o adágio “Extra Ecclesiam nulla salus”, porque a necessidade de preceito e de meio ainda é requerida para o recebimento da graça e da fé infusa. Seriam cristãos anônimos (na linguagem rahneriana), que fariam parte da Igreja “in voto” e não “in re”.

(3) Enquanto tais religiões contêm porções da revelação sagrada, as duas verdades mínimas elencadas pelos tratadistas dos séculos XVII e XVII como meios necessários para salvação [podem] ser cumpridas: a crença explícita que Deus existe e que é remunerador (se da ordem sobrenatural ou natural é matéria ainda disputada, como bem disse Ripalda na Disp. XVII, sect. XIII, n. 236 de seu “De ente supernaturali”).

O que serve especialmente para religiões como o islã: o Alcorão vale-se expressamente das palavras árabes que indicam que o universo e a natureza foram criados por Alá. Algumas delas, como sinaliza o teólogo Abu Bakar (do departamento de teologia e filosofia islâmica da Universidade da Malásia), estão em verbos e substantivos árabes como “khalaq” e “khaliq”, “badi`”, “j`ala”, “fa`ala” e “fa`il”, “fatar”, “fatir” e “ansh`a” (ver C., 6:1–3; 32:4; 29:61; 31:25; 2:117; 6:101; 42:11; 6:98 e 67:23).

A criação do universo pela onipotência de Deus, contudo, pode ser atestada por signos verbais e não verbais: os signos verbais estão contidos no Alcorão e nas tradições proféticas (3:112–114; 12:1 e 13:1–2); os sinais não verbais ou naturais, por outro lado, estão contidos no próprio universo e apontam, assim como as leis naturais, para o próprio Deus e seus atributos (41:53;45:3–5 e 51:20). Por consequência, é possível verificar algum conhecimento natural dEle a partir dos “sinais dados para os sensatos” (3:190; 2:164 e 21:32)

Eis o fundamento insuspeito da teologia natural islâmica: a criação como espelho do Criador e de seus atributos invisíveis; um fundamento inquestionavelmente semelhante ao dado por São Paulo Apóstolo na Epístola aos Romanos: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar” (Romanos, 1, 20).

Pois bem: o Alcorão tampouco rejeita, como vimos, esta ascensão até Deus através dos sinais da criação, o que é posição comum entre os teólogos muçulmanos e de antigos exegetas deste livro como Qadi Baydawi. Mas sequer precisamos elencar um Averróis (sobre este, reitero: jamais foi defensor da teoria posterior da “dupla verdade”), um Avicena ou um Al-Farabi; exemplos como o de al-Ash`ari, o fundador da escola Ash`arite de muçulmanos sunitas, já bastam. Nenhum leitor atento de sua “Al-Luma` fi-r-Radd”, em particular do primeiro capítulo, duvidará de sua extensa exposição dos argumentos para o “se é” de Deus. É possível elencar ainda autores de outras escolas de Kalam (de Maturidi, Mu’tazili), mas fiquemos por aqui.

Lembrando que até mesmo na tradição de Kalam houve filósofos que criticaram doutrinas como o atomismo, o voluntarismo e até o ocasionalismo (implícito ou explícito em alguns teólogos árabes); autores como An-Nazzam são exemplos célebres da falta de unanimidade de certas vertentes do “escolasticismo” árabe sobre algumas questões.

Para não esquecer: as suras corânicas 50:28 e 6:80 não atestam, nem de longe, a negação da teologia natural. São passagens que sequer tratam dos signos naturais que aqui comentamos. Aliás, ninguém poderá negar ao Alcorão o conhecimento de Deus pelo “lumen” natural do intelecto sem lidar com as passagens que aqui já expomos.

(4) À vista disso, ademais, podemos dizer que essas religiões podem dispor ocasionalmente da graça e da cogitação côngrua (hipótese de Gabriel Vásquez em I-II, Disp. CLXXXIX, c. XVI, n. 144) em razão da “fé” cultivada sobre Deus uno.

(5) Sim, a teologia da infidelidade pode servir como fundamento do ecumenismo religioso.

(6) Sim, existem vários teólogos católicos (“modernistas” como Royo Marín e Francis Sullivan) que entendem o ecumenismo sob as diretrizes escolásticas.

Nascido em 1996. Estudante de Psicologia pela Faculdade da Amazônia — FAMA. Tomista e apreciador do escolasticismo de modo geral.

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